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O medo. E eu.

imagePor que tive medo, deixei meu eu verdadeiro abandonado e escondido para que uma suposta segurança tomasse seu lugar.
Por que tive medo, construí o mais resistente e impenetrável dos muros ao meu redor. Mas não pude esconder os meus olhos. As pessoas liam neles as respostas não ditas para suas perguntas e não se deixavam enganar por truques de palavras baratas.
Por que tive medo, me fiz de pequena quando, na verdade, eu era muito mais complexa do que jamais imaginei.
Por que tive medo, deixei de olhar nos olhos daqueles que eram mais queridos.
Por que tive medo, não conseguia ouvir o que me diziam por que o barulho dos meus pensamentos covardes era alto demais.
Por que tive medo, deixei de escrever e, consequentemente, de me conhecer.
Por que tive medo, parei no tempo, onde nada pudesse ser arriscado. Guardei todas as minhas cartas e ignorei os jogos que aconteciam bem debaixo do meu nariz. Deixei, então, de viver.
Por que tive medo, fugi da realidade e fingi que era outra pessoa, vivendo em outro mundo, em outras condições. Mas aonde quer que eu fosse, ela me encontrava e me obrigava a olhá-la. O choque, então, era bem maior.
Por que tive medo, resolvi sentir pena de mim mesma e me fazer de fraca. Descobri que essa era a forma que encontrei para fugir das minhas responsabilidades.
Por que tive medo, tive também medo de ter medo. Assim, pude me esconder da escuridão e ficar a salvo dos monstros que nunca quis reconhecer que eram meus. Mas me esqueci que esses mesmos monstros eram a minha fonte inesgotável de inspiração para que eu escrevesse textos como esse.
Mas, não por que deixei de ter medo e sim por que passei a enfrenta-lo de cabeça erguida, passei a deixar meu passado para trás e, com ele, seus malfeitos e não feitos. Só então ele deixou de ser um fantasma e passou a ser algo pelo qual eu pude agradecer por ter vivenciado.
Por que tive medo, aprendi a ser humana.
Por que tive medo, aprendi a dar valor ao que realmente faz parte de quem eu sou: o meu presente.

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Maria ninguém

Ela acordou de ressaca. Não tinha nenhuma gota de álcool no sangue, mas a cabeça pesava e os ombros se curvavam para baixo involuntariamente. Sua vontade era a de dormir o dia inteiro. Ou talvez dormir até a ressaca acabar. Mas ela sabia que isso dificilmente aconteceria. Empurrou seu corpo para fora da cama e se irritou com o cobertor que a impedia de descer. Foi ao banheiro. Passou direto pelo espelho e tomou banho, não se incomodando com o chão e as paredes imundas. Aliás, se incomodou sem se incomodar em limpar um ladrilho sequer. De onde vinha aquela fadiga? Lembrou-se de chamar uma faxineira.
Vestiu-se tentando ignorar as roupas apertadas e desconfortáveis e não tomou café da manhã. Comeu o resto da barra de chocolate dentro da geladeira que sobrara de Natal e pediu um cappuccino no café chique da esquina. Mal se importou com os efeitos disso em seu organismo. Pensar cansava. Só teve energia para preocupar-se com o sorriso amarelo que deu ao padeiro Robson. Angustiou-se por um tempo como era de costume.
Andou no piloto automático que guardava para os momentos nos quais precisa mergulhar na própria mente e esquecer que tinha corpo. Este tal incomodava bastante. Tinham também os pés. Eles tinham essa mania horrível de pisar sobre um chão que a deixava tão fadigada da vida… Interessante também eram seus olhos. Achava talvez que fosse a miopia. Será que seu grau tinha aumentado? A caminho do trabalho – de carro, é claro – ela notou o quanto o tempo estava fechado. De novo.
(Suspiro.)
Talvez fosse a poluição. Quem sabe. Ela tinha uma mente que não dava muito espaço à observações sobre o mundo exterior. Era tudo tão frio e chato. Era o que ela sempre pensava. Tudo tão desinteressante.
No trabalho, lá veio a moça enfermeira querendo bater papo novamente. “Não tenho saco pra te ouvir, droga!”. Era o que sentia vontade de dizer, mas Matilde era tão inconveniente que não se dava conta do quanto suas palavras queimavam os ouvidos da médica. A cabeça já começava a doer.
Depois que conseguiu livrar-se da enfermeira, foi  direto para o consultório, bufando. O canto dos olhos pesavam.
O primeiro paciente era gordo. Melhor, obeso. Isso a incomodou. Não gostava de gente gorda. Além disso, ele também falava demais. Carlos era seu nome. Ela deu o diagnóstico de virose, depois de reprimir mentalmente quem deu-lhe esse nome. Ele não tinha cara de ser Carlos nem um pouco.
(Suspiro.)
Quais eram os sintomas mesmo?
(Suspiro.)
A próxima paciente era magra. “Ainda bem.”, ela pensou. Mas logo que sentou-se, percebeu o quanto seus ossos apareciam. Era magra demais! Devia estar doente por causa da magreza. Esta, chamada Júlia, até que  não era tão tagarela, mas tinha uma voz incrivelmente irritante.
A cabeça da médica doeu mais um pouco.
Não lembrou-se do diagnóstico que deu. Talvez virose.

Foram muitos pacientes. E no final do dia, sua cabeça explodia. Foram muitos Franciscos, muitas Marias, muitos Alfredos, muitos gordos, muitos magros, muitos chatos querendo conversar, muito mudos que só queriam um atestado, muitos pacientes, muitos muitos!
Voltou para casa esgotada. Cansava-se ao lembrar. O passado doía. O corpo também doía. Os olhos também doíam. O que havia de errado com seus olhos?
Deitou-se na cama desarrumada sentindo o peso de sua inutilidade apagar o último fluxo de consciência que a atormentava. Dormir também cansava. Sua boca estava seca.
No dia seguinte, ela acordou morta. Muitos dos desconhecidos que não foram ao enterro ainda se perguntam a causa. Dizem, morreu de cegueira. Mas todos sabem o quanto isso é impossível.
Em seu túmulo, não sabe-se quem escreveu, estavam as palavras: “Morreu anônima.”