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O medo. E eu.

imagePor que tive medo, deixei meu eu verdadeiro abandonado e escondido para que uma suposta segurança tomasse seu lugar.
Por que tive medo, construí o mais resistente e impenetrável dos muros ao meu redor. Mas não pude esconder os meus olhos. As pessoas liam neles as respostas não ditas para suas perguntas e não se deixavam enganar por truques de palavras baratas.
Por que tive medo, me fiz de pequena quando, na verdade, eu era muito mais complexa do que jamais imaginei.
Por que tive medo, deixei de olhar nos olhos daqueles que eram mais queridos.
Por que tive medo, não conseguia ouvir o que me diziam por que o barulho dos meus pensamentos covardes era alto demais.
Por que tive medo, deixei de escrever e, consequentemente, de me conhecer.
Por que tive medo, parei no tempo, onde nada pudesse ser arriscado. Guardei todas as minhas cartas e ignorei os jogos que aconteciam bem debaixo do meu nariz. Deixei, então, de viver.
Por que tive medo, fugi da realidade e fingi que era outra pessoa, vivendo em outro mundo, em outras condições. Mas aonde quer que eu fosse, ela me encontrava e me obrigava a olhá-la. O choque, então, era bem maior.
Por que tive medo, resolvi sentir pena de mim mesma e me fazer de fraca. Descobri que essa era a forma que encontrei para fugir das minhas responsabilidades.
Por que tive medo, tive também medo de ter medo. Assim, pude me esconder da escuridão e ficar a salvo dos monstros que nunca quis reconhecer que eram meus. Mas me esqueci que esses mesmos monstros eram a minha fonte inesgotável de inspiração para que eu escrevesse textos como esse.
Mas, não por que deixei de ter medo e sim por que passei a enfrenta-lo de cabeça erguida, passei a deixar meu passado para trás e, com ele, seus malfeitos e não feitos. Só então ele deixou de ser um fantasma e passou a ser algo pelo qual eu pude agradecer por ter vivenciado.
Por que tive medo, aprendi a ser humana.
Por que tive medo, aprendi a dar valor ao que realmente faz parte de quem eu sou: o meu presente.

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